sábado, 3 de maio de 2014

Regime militar salvou o Brasil de se tornar uma grande Angola

Por José Maria Silva

Carlos Marighella: padecendo torturas bárbaras, 
como muitas outras vítimas de ditaduras antes de 1964
Mas não se deve combater o mito guerrilheiro com outro mito — o do Exército salvador da pátria, que, a cada ameaça comunista, é chamado a salvar a democracia a golpes de Estado.

E assim foi preso Carlos Marighella, que ficaria internacionalmente famoso como autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”: em vez de encontrar Taciano Fernandes, companheiro de subversão, preso às duas e meia da madrugada, seu infeliz encontro em Santa Teresa, pouco depois das seis horas da manhã, foi com um “magote de policiais que voaram em sua direção como a tarrafa sobre o cardume”, na descrição de seu biógrafo Mário Magalhães. Foi jogado num carro, já apanhando, e levado para a Polícia Central do Rio de Janeiro, onde foi recebido com murros no rosto, no peito e nas costas, em meio a impropérios. Ao ser entregue ao chefe de Segurança Social, Serafim Braga, recebeu mais uma rodada de golpes: socos no estômago e pancadas de canos de borracha, em meio a perguntas para que delatasse seus companheiros. Não satisfeitos, seus algozes passaram a açoitá-lo nos rins, nas costas e nas nádegas.

“Cinco sessões de espancamentos depois”, conta Mário Magalhães, “encaminharam o comunista renitente para uma sala exclusiva para tortura”, onde nada lhe foi dado para comer, até que, no início da tarde, o chefe de Segurança Política, Antônio Emílio Romano, “comandou outra sova concentrada na cabeça: o sangue escorreu pelo nariz e Marighella desmaiou”. Depois de um curto descanso da tortura, enquanto policiais vasculhavam a casa onde morava de aluguel, Marighella voltou a sofrer novo corretivo. Depois de 12 horas dessa tortura inicial na Central de Polícia, seus captores desistiram de arrancar-lhe qualquer informação relevante e ele foi levado para o terror de todos os subversivos — o quartel do Morro de Santo Antônio, espécie de sétimo círculo do Inferno de Dante.

Tão logo foi jogado para fora do carro no pátio mal iluminado, Marighella foi cercado por investigadores com seus cigarros acesos. Como demônios à roda, envoltos na fumaça do tabaco, que Marighella detestava, recomeçou a tortura: murros, pontapés e a brasa dos cigarros queimando a pele. Para completar, um alfinete de gravata foi enfiado em seus dedos, debaixo das unhas, uma por uma, metodicamente, até chegar à última, deixando suas mãos completamente ensanguentadas e inchadas. Como se não bastasse, os torturadores agarraram seus testículos e, a cada pergunta não respondida, apertavam com mais força. A dor se tornou insuportável e Marighella desmaiou. Já era madrugada de sábado e estava sem comer desde a manhã de sexta-feira. Mesmo assim, a manhã o aguardou com novas mudanças de cárcere e, em cada uma delas, mais espancamentos: murros, pontapés, cassetes, canos de borracha. “A dor lancinante de uma hérnia, castigada pelos golpes, quase o enlouqueceu”, conta Mário Magalhães.

Carlos Marighella foi apenas um dos muitos prisioneiros políticos destroçados pela tortura, como mostra seu biógrafo ao descrever o martírio de outros torturados: “As paredes do quartel da Polícia Especial haviam ensurdecido com os berros desesperados de Arthur Ewert, cuja loucura provocada pela truculência já se manifestava”. Para tentar salvar o alemão Ewert das torturas, o advogado Heráclito Sobral Pinto invocou a lei de proteção aos animais, mas pouco adiantou. O preso político ficou confinado durante dez anos nas prisões brasileiras e, quando enfim foi libertado, já estava irremediavelmente louco e terminou seus dias num hospital psiquiátrico da Alemanha, seu país natal. Já o norte-americano Victor Allen Baron, operador de rádio que tinha sido enviado pelo Komintern para fazer a Revolução, foi poupado da loucura: depois de ter sido destroçado pelos torturadores, foi atirado do terceiro andar do presídio onde estava sendo interrogado, numa simulação de suicídio.

O nazismo verde-oliva dos “Comitês de Vingança”

Mas engana-se quem pensa que essas torturas bárbaras tiveram lugar após o dia 31 de março de 1964, que inaugurou, há exatos 50 anos, o regime militar no Brasil, reduzido por historiadores e formadores de opinião à pecha de “ditadura militar”; na verdade, essas torturas sofridas por Carlos Marighella e seus camaradas de comunismo ocorreram não em 1964, mas entre o final de 1935 e o início de 1936, durante o governo de Getúlio Vargas — o caudilho respeitado por Lula e pelo PT, cuja ditadura sanguinária passou para os livros de história como “Revolução de 30”. Corretamente, por sinal, pois Vargas foi muito mais do que um mero ditador — com truculência e paternalismo, ele consolidou a República, que não passava, até então, de uma infeliz quartelada. De modo análogo, o regime militar de 1964 criou o Brasil moderno, urbano, expandindo a educação básica, o ensino universitário e lançando as bases da pesquisa científica no Brasil.

Por isso, as “Comissões da Ver­da­de” que se espalham pelo País afora não passam de Comitês de Vingança, ocupados em distorcer a história para engendrar, dentro dela, uma espécie de nazismo verde-oliva, representado pelos militares que salvaram o Brasil do terrorismo crônico ou da guerra civil em 1964. As novas gerações foram e continuam sendo forçadas a pensar que os governos militares pós-64 são a síntese de tudo de ruim que aconteceu na história do Brasil e que nada houve pior do que isso. A se crer no tom horrorizado com que os formadores de opinião repetem a expressão “ditadura militar”, tem-se a im­pressão de que nem mesmo a escravidão se igualou em crueldade ao regime instaurado no País em 64. O regime militar tornou-se uma espécie de marco zero da iniquidade nacional, projetando sua sombra devastadora no passado e no futuro, como se fosse responsável retroativamente pelo extermínio dos índios pelos bandeirantes, a escravidão do negro pelo português e até, projetivamente, pelos escândalos de corrupção que continuam assolando a República.

Prova disso é que a ditadura civil de Getúlio Vargas tem um tratamento muito diferente nos livros de história e nas páginas dos jornais. Enquanto o golpe de Estado de 24 de outubro de 1930, que depôs o presidente Washington Luís, é retratado como “Revolução de 30”, o golpe de Estado de 31 de março de 1964, que depôs o presidente João Goulart, é reduzido a epítetos como “Ditadura Militar” e “Anos de Chumbo”. Mas quem entregou Olga Benário, grávida, para as fornalhas nazistas não foram os militares de 1964, mas o ditador Getúlio Vargas, quando combatia a Intentona Comunista de 1935. O que não impediu Luiz Carlos Prestes, o santo comunista de Jorge Amado, de inocentar Getúlio Vargas com seu apoio político, pisoteando e cuspindo na memória da mãe de sua filha Anita Leocádia, hoje historiadora, que, por sorte, escapou da morte.

O comunista Prestes e sua sentença desumana

Se tucanos e pefelistas não padecessem de ingenuidade ideológica, o escopo investigativo da Comissão da Verdade teria retroagido a 1930 e, então, o Brasil saberia como é gélido o coração da ideologia de esquerda, que ama a abstração da humanidade com tanto fervor que não hesita em sacrificar o ser humano concreto que não se encaixe nesse ideal de perfeição. Apesar das torturas que seus camaradas padeceram nas garras da polícia do Estado Novo de Vargas (da qual ele próprio fora poupado, por ser militar) e da prisão da judia Olga Benário, sua mulher, entregue aos nazistas aos sete meses de gravidez, Luís Carlos Prestes perdoou Vargas em nome do ideal comunista desossado de gente, por isso sempre pronto a saltar por cima de cadáveres. Em 23 de maio de 1945, num comício no Estádio do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, depois de nove anos preso, Prestes defendeu a união nacional em torno do ditador Getúlio Vargas e disse que defender sua saída do poder, como pregavam os setores democráticos, seria uma deserção e uma traição.

Dias depois, em 15 de julho de 1945, desta vez no estádio do Pacaembu, em São Paulo, Prestes voltou a defender Vargas, seu velho algoz, chamando de fascistas todos aqueles que criticavam o ditador e defendiam o fim de seu regime para que fosse eleita democraticamente uma Assembleia Nacional Cons­tituinte. Prestes, ao contrário, queria uma Constituinte com Vargas no poder, algo como uma Constituição de 88 tutelada por um presidente militar. O entusiasmo com que defendia o caudilho gaúcho dividiu o próprio Partido Comunista. Alguns de seus camaradas não conseguiam entender como um homem como Prestes, que tinha sido preso por Getúlio e vira sua mulher judia ser entregue grávida à Alemanha de Hitler, sucumbindo ao nazismo, podia, naquele momento, transformar-se em arauto do ditador, tentando evitar a derrocada de seu regime, a ponto de apoiar uma Constituinte tutelada.

Mas não foi apenas a memória de Olga Benário que a ideologia comunista matou com a sua indiferença pela vida humana. Antes de ser presa, a cúpula do Partido Comunista (PC) executou Elza Fernandes, uma pobre moça do interior que, aos 16 anos, se tornara amante de Miranda, então secretário-geral do partido. Desconfiado de que ela estava sendo usada pela polícia para caçar e prender seus camaradas de partido, Luiz Carlos Prestes lavrou a sentença de morte da Garota, como Elza era conhecida. Como seus camaradas hesitassem em executar a sentença, Prestes escreveu-lhes um duro bilhete, chamando-os de medrosos: “Fui dolorosamente surpreendido pela falta de resolução e vacilação de vocês. Assim não se pode dirigir o Partido do Proletariado, da classe revolucionária. (...) Por que modificar a decisão a respeito da ‘garota’? Que tem a ver uma coisa com a outra? (...) Com plena consciência de minha responsabilidade, desde os primeiros instantes tenho dado a vocês minha opinião quanto ao que fazer com ela. Em minha carta de 16, sou categórico e nada mais tenho a acrescentar”.

Diante da determinação do líder maior do Partido Comunista, Elza foi transferida para uma casa num local ermo de Deodoro, subúrbio do Rio de Janeiro, e a sentença foi executada por quatro membros do partido. Depois de, inocentemente, fazer café para os companheiros, ela foi estrangulada com uma corda e seu corpo foi quebrado ao meio, até que os pés se juntassem ao pescoço, para que coubesse dentro de um saco e pudesse ser enterrada no quintal da casa. Estava cumprida a vontade de Luiz Carlos Prestes, o Cavalheiro da Esperança, um dos heróis da Comissão da Verdade. Em seu favor, não se pode alegar nem mesmo o medo da tortura ou da morte, já que era um soldado tarimbado e, como se veria depois, foi preso com toda a dignidade de um comandante, sem passar pelas agruras dos companheiros de infortúnio.

O genocídio comunista no Araguaia

No caso dos demais comunistas, candidatos a passar pelo que Carlos Marighella passou nos porões da ditadura Vargas, é até compreensível que eles quisessem afastar todas as possíveis causas de sua prisão. E se Elza Fernandes, com sua ingenuidade facilmente manipulável pela polícia, era uma dessas causas, quem pode acusá-los por tentar salvar a própria pele esfolando a pele de terceiros? Confesso que até entendo o desespero dos subversivos políticos que, perseguidos pela polícia e temendo a tortura e a morte, entregavam um companheiro ou até mesmo o eliminavam, numa tentativa desesperada de sobrevivência. O que não se pode admitir é que, mesmo depois desse tipo de experiência, várias vezes repetida na história, a esquerda jamais aprenda com seus próprios erros e continue glorificando a luta armada, como se fosse possível construir uma sociedade perfeita regada com o sangue de inocentes.

Com base nessa arrogante cegueira ideológica, que desconsidera as fragilidades do homem concreto, a esquerda cria mitos — como o nazismo verde-oliva que vai sendo imposto pelas Comis­sões da Verdade. Ao mesmo tempo, como contraponto a essa crueldade nazista dos militares, engendra-se, também falsamente, o impoluto idealismo da geração de guerrilheiros que combateram o regime, hoje transformados em verdadeiros santos nas páginas dos jornais e nos livros de história. Já escrevi e repito: o regime militar de 64 é a muleta moral dos intelectuais de esquerda — eles o acusam de todos os crimes para melhor acobertarem os próprios. Começando pela guerrilha urbana e rural, o crack da época, que aliciava adolescentes e jovens doidivanas para uma luta obviamente suicida, cujos mortos deveriam pesar não apenas nos ombros de seus torturadores e assassinos, mas também na consciência dos velhos dirigentes comunistas do PCdoB — diretamente responsáveis pelos mortos na Guerrilha do Araguaia.

Só mesmo a insanidade ideológica para levar um grupo de intelectuais a acreditar que seria possível fazer a revolução comunista num País de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 70 milhões de habitantes a partir do voluntarismo de 98 guerrilheiros, praticamente sem armas, perdidos no meio da selva, na maioria estudantes universitários urbanos, muitos dos quais nunca tinham tomado nem banho frio na vida. O modelo era a Grande Marcha de Mao Tsé-Tung. Mas o Oriente é outro mundo e a China faz fronteira com a Rússia, o que facilitava o apoio de Stálin à guerrilha maoísta. Como contam Jon Holliday e Jung Chang na biografia “Mao: A História Desconhecida”, a União Soviética tinha homens em todas as principais cidades chinesas e fornecia armas, remédios e informações essenciais para a sobrevivência do Partido Comunista Chinês.

O perigoso maniqueísmo ideológico

Com base nesse aparato bélico e de espionagem, os soviéticos conseguiam sublevar camponeses em diversas províncias chinesas e, antes mesmo de Mao iniciar a Grande Marcha, os comunistas já contavam com um exército de 20 mil homens na China, tirados do exército nacionalista de Chiang Kai-shek. Algo muito diferente do Brasil, um país quase tão grande quanto a China, com uma cultura nada guerreira e, ainda por cima, na área de influência dos Estados Unidos, que, obviamente, jamais aceitariam de braços cruzados a transformação do maior país da América Latina numa nação comunista. Para os Estados Unidos, uma coisa era permitir que uma pequena ilha como Cuba se tornasse uma ditadura comunista; outra bem diferente era aceitar que o mesmo ocorresse no Brasil. Se nem hoje a Rússia aceita que a Crimeia deixe sua área de influência, como imaginar que o Brasil se tornaria satélite de Moscou a partir da tresloucada aventura dos guerrilheiros do Araguaia?

Todas as guerrilhas de sucesso no mundo, inclusive a que é promovida pelas Farc na Colômbia, foram feitas em regiões de fronteira, de preferência entre países rivais, permitindo que os guerrilheiros, quando cassados pelas forças legais de seu país, pudessem se homiziar temporariamente no país vizinho. Creio que a única guerrilha do mundo totalmente ilhada na região central de um país, sem qualquer rota de fuga decente, foi justamente a Guerrilha do Araguaia — o que mostra a insanidade mental e moral de seus idealizadores. Os jovens que perderam a vida na guerrilha armada, urbana ou rural, não eram heróis coisa nenhuma. Eram apenas lunáticos — seduzidos para a morte pelos genocidas da própria esquerda que formularam uma luta armada sem qualquer chance de vitória. E se o seu intento lograsse algum efeito, ele não seria a implantação do socialismo, mas a eclosão de uma guerra civil. Ou os empresários iriam dividir suas empresas; os proprietários rurais, suas terras; a classe média, suas casas — tudo isso sem luta? Se a guerrilha desse certo, o Brasil não seria uma nova potência socialista — seria uma imensa Angola de miséria e sangue.

Não se constrói uma nação com base no maniqueísmo ideológico, que aniquila o senso crítico e infantiliza os jovens, tornando-os presas fáceis de qualquer demagogo de esquerda que se apresente como revisor do passado e senhor do futuro, oferecendo a utopia da revolução como uma espécie de errata da própria humanidade. A nação precisa ser criticamente educada para pensar o passado sem exageros, reconhecendo os erros e acertos de cada período histórico. É impossível, por exemplo, que, nos 21 anos que separam o golpe militar de 1964 da eleição de um presidente civil em 1985, o Brasil tenha sido apenas uma terra arrasada por “anos de chumbo”, como querem fazer crer os Comitês da Vingança que se arvoram a senhores da verdade. “O regime militar brasileiro não foi uma ditadura militar de 21 anos” — é o que afirma o historiador Marco Antonio Villa, doutor em história pela USP e professor da Universidade Federal de São Carlos, em seu livro “Ditadura à Brasileira”, com o qual eu e os fatos concordamos integralmente. Até o final de 1968, antes do AI-5, o Brasil vivia uma efervescência político-cultural mais intensa do que hoje. Depois da Anistia, em 1979, também.

Mas não se deve combater o mito guerrilheiro com outro mito — o do Exército salvador da pátria, que, a cada ameaça comunista, é chamado a salvar a democracia a golpes de Estado. O Brasil vive novamente um desses momentos cruciais de sua história, em que as instituições estão sendo transformadas em instrumento da ideologia esquerdista — o que leva alguns setores da sociedade, ainda que minoritários, a pedir a volta dos militares. É suicídio. Uma nação adulta dispensa pais de farda. A República brasileira não pode ser uma quartelada, com interregnos de democracia em meio a uma história de arbítrios. Mas também não pode ser uma eterna utopia, em que, à custa de construir um “outro mun­do possível”, a esquerda destrua co­tidianamente o mundo real, atiçando pobres contra ricos, negros contra brancos, mulheres contra ho­mens, minorias contra maiorias, até que, em meio a esse caos de conflitos forjados, tenhamos o pior dos conflitos: militares contra civis — que é onde morre a democracia.


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