sábado, 12 de julho de 2014

Robocop e a ilusão de justiça

 
Adorei o filme Robocop dirigido por José Padilha. De qualquer ângulo que se olhe é um bom filme, exceto por um grave erro no argumento, sobre o qual já falarei. O remake só não é uma obra prima porque escapou da discussão de fundo sobre a Justiça e seu aparato repressivo. Essa discussão levaria à própria discussão da natureza da lei, sua legitimidade, sua extensão, sua fonte.

Ambientado num tempo futurista, de ficção científica, o Robocop do Padilha faz uma viagem sobre os futuros instrumentos bélicos autômatos, tempo no qual soldados seriam substituídos por máquinas controladas remotamente. De fato, já temos algo assim com os drones. Mas o argumento do filme se funda na recusa do Senado de aprovar o uso policial dessas máquinas, porque as mesmas não sentiriam “emoções”. Aqui está a falha clamorosa.

A questão principal não é saber se máquinas têm, ou não, emoções, mas é saber qual a fonte da lei e da Justiça e qual o raio de ação do Estado para aplica-las. O filme atual, como o anterior, faz do policial meio homem, meio máquina, um instrumento de aplicação instantânea da lei e da Justiça. É como se fosse um Ranger do Far West, duelando contra os criminosos armados. A maior falha do argumento é essa, a de que essa coisa robótica é quase indestrutível e tem força descomunal, sendo necessária bala calibre .50 para destruí-la. Se assim é, um criminoso armado com armas comuns não seria ameaça ao Cyborg. Mas ele age como se ele fosse um homem comum. E mata, quando facilmente poderia dominar e algemar o criminoso valente. Grave erro de argumento.

Robocop é a lei e o tribunal e o verdugo quando encontra diante de si resistência armada.

A discussão em torno da “automação” plena do Robocop por lhe eliminar as memórias emocionais se insere  dentro desse contexto. O roteirista mostrou que o elemento humano é forte e a memória afetiva é recuperada, apesar de tudo. Mas esse não é o ponto essencial, o essencial é saber se a lei defendida pelo Robocop é justa. A questão da lei é mais complicada. O que está em jogo é a suposta sacralidade da lei estatal, que cabe cumprir a qualquer preço sob pena de se pagar com a vida. Um mundo povoado de máquinas vingadoras como o Robocop está no horizonte. Seria a ditadura policial perfeita, total, da qual ninguém escaparia. E quem faria a lei? Um Senado? Um Congresso? Um ditador? Quem garante que a lei é justa e legítima? As armas do Robocop?

Se a fonte da lei é um colegiado ou um homem não é a questão principal. A questão é: a lei estatal não pode ser questionada e mesmo descumprida? O cristianismo prescreve a confissão, o perdão e a pena expiatória para os transgressores da lei de Deus. Já a lei abstrata estatal é inflexível e inexorável e não cogita de perdão algum. Nosso mundo já está assim, o Leviatã e suas leis pairam acima da moral e da consideração individual, tornaram-se uma coisa monstruosa, acima da condição humana. O Estado moderno escravizou os homens e os mantem sob o contínuo terror de sua Justiça, suas polícias e suas Forças Armadas. A liberdade é ficção.

Para piorar, os homens-massa pedem sempre mais Estado a cada fato novo que acontece. O limite da ditadura policial não existe para as massas vingadoras, incapazes de perdoar. Assim, o Estado moderno encarna o poderoso Baal, que se compraz em aprisionar e matar homens, mesmo que e também porque são seus súditos. Quem adora o Estado precisa pagar o preço com a vida.

Se o filme tocasse nesse ponto nevrálgico se tornaria uma obra inesquecível. Pena que não. Mesmo assim, vale ver, pois é divertido e, para quem pensa o Estado, a lei e o Direito nos termos que proponho, é um filme assustador, de terror. Livrai-nos Deus do maligno Estado moderno!

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