Por Josias de Souza - Notícias uol
Há muito mais em jogo na delação prometida por Paulo Roberto
Costa do que a simples prospecção dos podres que se acumulam nas profundezas da
Petrobras, abaixo da câmara pré-moral. Se estiver falando sério, o ex-diretor
da maior estatal do país está prestes a jogar as petromaracutaias no ventilador
da sucessão presidencial de 2014. Uma novidade com potencial para sacudir o
coreto da candidatura oficial, espalhando óleo queimado em suas vastas
coligações.
Preso em Curitiba, Paulinho, como Lula costumava chamá-lo,
conversou nesta sexta-feira (22) com Beatriz Lessa da Fonseca Catta Preta, uma
advogada especializada na costura de acordos de delação premiada, nos quais o
réu abre seus segredos à Justiça em troca de uma redução da pena. Como se fosse
pouco, o doleiro Alberto Youssef informou ao seu advogado, Antônio Figueiredo
Basto, que cogita acelerar a velocidade da hélice do ventilador, aderindo à
delação.
Até aqui, o Planalto conseguiu deter o derramamento de óleo
na pista da sucessão por meio da domesticação de duas CPIs no Congresso.
Soltando a língua à vera, Paulo Costa vai mostrar os dentes da engrenagem que
move a intermediação de interesses de empreiteiras e fornecedores da Petrobras
e o pagamento de propinas a políticos. A implosão desse esquema parece
inevitável, como inevitável foi o estouro das milionárias arcas do mensalão.
A inevitabilidade do estrondo é proporcional à octanagem dos
papéis colecionados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público na Operação
Lava Jato. Quebraram-se os sigilos de quase uma centena de contas bancárias.
Apalparam-se mensagens eletrônicas de mais de três dezenas de celulares. Afora
o papelório novo recolhido nesta sexta em batidas policiais feitas em 13
empresas, os investigadores já dispõem de mais de 80 mil documentos —o grosso
ainda por analisar.
O conteúdo é inflamável. Revela uma corrente com quatro
elos. Numa ponta, os corruptores. Noutra, os corruptos. No meio, Paulo Roberto
promovendo a integração dos extremos e Youssef lavando o dinheiro sujo que
migra de uma ponta à outra. Parte dos papeis está codificada. O pedaço já
elucidado resultou na abertura de oito processos contra 42 pessoas físicas e jurídicas.
Como subproduto, correm na Câmara os pedidos de cassação dos mandatos de André
Vargas (ex-PT-PR) e Luiz Argôlo (SD-BA).
A colaboração de Paulo Costa —nesta segunda-feira vai-se
saber se Youssef também abrirá o bico— será útil se servir para perfurar a
camada de ficção que impede que as sondas da investigação alcancem as camadas
mais profundas das maracutaias urdidas na Petrobras. Se funcionar, logo, logo
será possível saber quem comprou quem, por quanto e como.
Na noite desta sexta, um personagem otimista da investigação
disse ao repórter ter fundadas razões para acreditar que Paulo Roberto será
explícito. Nas suas palavras, a prisão produziu na alma do ex-diretor de
Abastecimento da Petrobras um processo de ‘asfixia depressiva’. De resto, o
personagem angustiou-se ao perceber que suas estripulias começaram a encrencar
amigos e parentes. Entre eles uma filha e o marido dela.
Funcionário de carreira da Petrobras, o engenheiro Paulo
Costa foi alçado à diretoria da estatal graças a um câncer chamado “indicação
política” —eufemismo utilizado para suavizar a licença que os governos concedem
a certos servidores para subordinar o interesse público às conveniências
político-privadas de políticos corruptos e logomarcas corruptoras.
Nomeado sob Lula, em 2003, Paulo Roberto sobreviveu na
diretoria de Abastecimento da Petrobras até 2012, já na gestão de Dilma
Rousseff. Apadrinhou-o PP. Mas a longevidade aproximou-o também do PT e do
PMDB, sócios majoritários do condomóinio governista. O personagem tocava as
obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.
Trata-se do maior projeto em andamento na Petrobras.
Iniciado em 2007 com orçamento de US$ 2 bilhões, o empreendimento já sorveu US$
18,5 bilhões —em reais: R$ 42,2 bilhões. Suspeita-se que o relacionamento com
Paulo Roberto tenha acomodado nos arredores do canteiro da obra dois tipos de
políticos: os abertamente cínicos e os quer não conseguiram se conter. Os
primeiros fizeram caixa dois eleitoral. Os outros engordaram o patrimônio
pessoal.
Dependendo da viscosidade do óleo que Paulinho borrifará no
ventilador, o prejuízo de Pasadena vai parecer troco. E a cruz que a gestão
Lula acomodou nos ombros de Dilma ficará mais pesada. Isso numa fase em que
Aécio Neves prega a reestatização da Petrobras e Marina Silva corre por fora
entoando o discurso da “nova política”, espécie de samba enredo da terceira
via, para o eleitorado que bateu bumbo nas ruas por mudanças.
Nenhum comentário:
Postar um comentário